Breve introdução
Guimarães Jazz 2026
Em 2026 o Guimarães Jazz cumpre 35 anos de uma história que começou no início da última década do século XX, um tempo de aparente estabilidade, e continua o seu processo de crescimento e expansão pela terceira década do século XXI, um tempo de explícita convulsão. A efeméride é assinalada com a publicação de um livro de retrospetiva das últimas edições do festival, descendente direto de um outro – intitulado Novembro – no qual se documentaram os primeiros 25 anos. Não obstante esta celebração, a perspetiva do Guimarães Jazz foi sempre baseada no princípio de que o mais importante é o que está para acontecer e não o que já foi feito, pelo que é no presente que nos devemos centrar. O presente é uma edição, esta que agora apresentamos, com um programa eclético que manifesta uma predisposição para a procura de experiências musicais diferenciadas e focada, não na enfatização de movimentos ou estéticas, mas no entendimento das subtilezas dos processos criativos.
O primeiro aspeto a destacar do alinhamento da 35.ª edição do Guimarães Jazz é a circunstância de, com a honrosa exceção do vocalista Kurt Elling – acompanhado pela Orquestra Nacional de Jazz da Macedónia do Norte, conduzida por Dzijan Emin, também ele de regresso a este palco –, todos os restantes projetos e respetivos líderes constituírem estreias no festival. Neste grupo extremamente equilibrado em termos de projeção mediática incluem-se os nomes de Peter Evans – um trompetista influente do jazz contemporâneo que atuará em quarteto acompanhado por Joel Ross, Nick Jozwiak e Tyshawn Sorey –, Kurt Rosenwinkel – guitarrista com uma relação próxima com Portugal e cuja presença em Guimarães já se justificava há muito tempo – em quinteto rodeado por um conjunto magnífico de músicos, e o supergrupo feminino ARTEMIS, composto por cinco instrumentistas de excelência – Ingrid Jensen, Nicole Glover, Noriko Ueda, Allison Miller e Renee Rosnes, pianista que também assume o papel de direção musical. Os restantes concertos do grande auditório refletem a tendência do festival para integrar programações próprias no seu alinhamento; nesse sentido tanto a presença do histórico guitarrista e vocalista brasileiro Toninho Horta, que em quarteto acompanhado pela Orquestra de Guimarães terá a responsabilidade de inaugurar o festival, como a do compositor e pianista vimaranense Pedro Emanuel Pereira – o qual apresentará o projeto Beyond Miles ao lado do acordeonista João Barradas, entre outros músicos portugueses de relevo –, constituem ilustrações exemplares do esforço para privilegiar espetáculos com caraterísticas específicas e irrepetíveis. Ainda neste campo das produções próprias, as tradicionais parcerias do Guimarães Jazz com a ESMAE e a Porta-Jazz serão protagonizadas, no primeiro caso, por um quinteto nova-iorquino liderado pelo pianista Lex Korten e composto, entre outros, pela vocalista argentino-alemã Sabeth Pérez – este grupo será também responsável pelas jam sessions – e, no segundo, pelo projeto Filigrana, protagonizado por um quarteto liderado pelo pianista Miguel Meirinhos e pela artista plástica Joana BC.
O programa desta 35.ª edição fica concluído com dois concertos de caráter e com intenções artísticas muito distintas, mas que apesar de posicionados no pequeno auditório merecem destaque pela excelência dos músicos que neles estão envolvidos. No primeiro sábado do festival atuará um trio constituído por três instrumentistas importantes da cena musical de Chicago das três primeiras décadas do século XXI – Dave Rempis, Jason Adasiewicz e Chris Corsano –, cuja abordagem pós-moderna ao jazz e à improvisação continua a criar ondas de influência no presente musical. No sábado da segunda semana subirá a palco, integrado na parceria com a Sonoscopia, o compositor holandês Ernst Reijseger, um violoncelista original e idiossincrático com uma carreira prestigiada que inclui a escrita de bandas sonoras para filmes do célebre realizador Werner Herzog. Esta atuação marca o seu regresso a Guimarães, 25 anos após uma primeira presença no festival, desta vez em trio com o pianista Harmen Fraanje, e o vocalista e multi-instrumentista senegalês, e seu cúmplice criativo de muitas décadas, Mola Sylla.
A fechar, uma referência para o terceiro capítulo da parceria do Guimarães Jazz com o Centro de Estudos de Jazz da Universidade de Aveiro que, em 2026, contemplará, além do concerto com o projeto vencedor do concurso de jazz promovido por esta instituição (o João Tavares Quinteto), a apresentação da exposição Corpo & Alma, onde se mostra uma seleção do acervo deste Centro de Estudos e presta homenagem aos colecionadores e divulgadores José Duarte e Manuel Jorge Veloso, cujo espólio forma uma síntese possível de uma história do jazz em Portugal.
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